Parte 1

Quando a vida te fecha uma porta,
em algum lugar Deus te abre uma janela

 

Abril de 1999.
Eu estava literalmente sobrevivendo alguns meses após perder o grande amor da minha vida.
Aos 23 anos de idade, me via perdida e sozinha, com dois filhos (um menino prestes a completar 4 anos e uma menininha com menos de 1 mês de vida) e sem a menor perspectiva de nada.

Com muita desolação e até raiva, eu questionava a Deus sobre a vida que tinha acabado pra mim; e até colocava em cheque a Sua existência.
Eu me sentia endurecida por dentro. Justo eu, que sempre tive uma capacidade absurda de amar, me fechei para quem era importante pra mim, meu humor oscilava em altos e baixos, chorava mais do que ria, e quando o fazia, era um sorriso insosso, amarelo, sem graça.

Parei de sonhar, de fazer planos, congelei meu coração e abandonei minha fé. Os dias se arrastavam, a saudade que eu sentia do Xande latejava forte, doía fisicamente. A sensação era como se um pedaço do meu corpo tivesse sido amputado.

Nos poucos momentos em que me pegava rezando, eu só sabia pedir… e sempre era o mesmo pedido:

– Deus, fazei com que os dias fluam como é de praxe no último capítulo da novela das oito” (como o tempo é curto, o autor da trama tem por hábito omitir detalhes irrelevantes que ficam inseridos dentro daquela lacuna dos ”2 anos depois”).

Na tentativa de mascarar um pouco o meu estado depressivo, comprei um computador e fiz dele o meu refúgio para não sucumbir aos momentos de tristeza e solidão.

Todos os dias eram iguais: eu acessava o provedor UOL, escolhia uma sala de bate-papo, e lá ia eu esquecer um pouco da vida e da minha angustiante realidade.

Meu nickname (apelido) era Cherry. As salas de bate papo eram meu universo paralelo, pois lá, a viúva triste e sem vida dava lugar a uma jovem mulher que digitava alegremente e falava sobre assuntos variados.

Até o dia que um tal de Iceman adentrou uma das salas em que eu estava e, aos invés do costumeiro
”Boa noite, quem quer teclar?”, colou o texto abaixo que me sacudiu por dentro:

O que é o Amor?
É um pedaço do teu corpo entregue em outra alma,
É o pensamento que vaga distante, quando tu não estás presente.
É o jeito de falar com os olhos, sem precisar nada dizer,
É só se perceber o brilho, que ofusca a quem se busca…
É deixar vagar a mente…
É saber que mesmo distante, tens teu coração junto ao meu…
É saber que tu podes penetrar no meu corpo, sem precisar me tocar…
É sentir que estás perto, mesmo sem te enxergar…
É perceber que tu chegastes com o tempo…
Nos descaminhos que nos fizeram unir os corpos,Como se as almas se encontrassem…
É sentir-se completo, pleno, cheio de forças e de sonhos…
É poder sentir teu toque, teu cheiro, teu gosto, teu ser…
É sentir o ofegar da tua respiração, quando encontra com a minha…
É saber que teu abraço, me sustenta e me ampara…
É ouvir tua voz trêmula, com medo da vida que me trouxestes até tu.
É ver que o tempo passou mais devagar para mim…
O Amor, o que é o Amor…nessa vida sem rumo, sem tempo certo?
É o encontro da escuridão da noite, com os raios do sol…
É o nascimento da semente, que cresce para a vida…
Que faz crescer a flor, que exala o mais doce perfume…
E que se deixa morrer, para que dela outras possam nascer..
O Amor, o Amor é…
O encontro das gotas do mar, que fazem crescer as águas…
É a chuva que cai…
É o vento forte, que se mostra na tempestade…
É a brisa que te beija sempre ao amanhecer…
É o sol que brilha, lembrando que é hora de um novo amanhecer…
O Amor, o Amor é…
Como a vida, que começa devagar, nos passos incertos de uma criança…
Depois continua na incerteza de passos ainda mais incertos…
E por fim, se vê o caminho que o tempo não te deixou seguir.
Por não ter chegado a tua hora…E quando é a hora de Amar???
São todos os segundos que a vida te entrega,
São todas as manhãs que o dia te chama,
São todas as noites que o dia te cala.
É quando teu coração se prepara para dar,Não esperando para receber…
É quando tu te entregas, sem medo de perder…
É quando tu consegues sorrir de tanto chorar…
É quando tu consegues se elevar dos sonhos…
É quando teus lábios murmuram o silêncio…
É quando tua voz penetra no espaço…
É quando tu sentes que chegou tua hora…
É quando as horas encontram seu tempo…
É quando um pedaço de mim se vai…
É quando percebo que tu já não vives em mim…
É então que busco encontrar os sonhos…
Para então poder ter a vida ao meu alcance…
Antes que eu não possa mais senti-la…
É tentar te encontrar na eternidade…
Para novamente poder te Amar… 

Cada trecho foi sendo dissecado por mim.
As lágrimas rolavam – “Eis um sinal!” – eu pensei.

Era o Xande falando comigo através de outra pessoa conectada à rede, sabe-se lá de onde.

(CONTINUA….)