Parte 3

Caiu numa 3a. feira, dia seguinte ao feriado de 7 de Setembro.
Após passar um final de semana relaxante e divertido na companhia dos padrinhos do nosso filho Matheus, ter sido cercada de muitos mimos por estar à espera da nossa Beatriz (apesar dos 2 meses e meio de gestação, meus instintos de mãe já me diziam que seria menina), e ter tido uma noite de amor maravilhosa, guardo também a lembrança de sentir um forte aperto no peito ao ver o Xande saindo pra trabalhar.
Foi uma sensação estranha de saudade aliada a uma vontade quase irresistível de pedir pra ele não ir trabalhar e ficar em casa com a gente. Mas não tinha como, principalmente depois de um final de semana seguido de um feriado. Sem chances. Nem tentei.
O dia foi normal e no final da tarde meus pais vieram me visitar.
De surpresa, trouxeram minha tia que estava a passeio no Brasil depois de quase 3 anos morando em Nova Iorque. Estávamos papeando alegremente, vendo fotos, o Matheus nem piscava enquanto assistia a um dos seus desenhos favoritos na televisão, quando perto do horário do Xande chegar, o campainha do telefone tocou.
O aparelho estava na cozinha, minha mãe foi atender e, em seguida, foi na sala e chamou o meu pai. Juro que não notei nada de estranho, até o momento em que ela e minha tia se olharam e balbuciaram algo entre si que eu não consegui captar. Li mais ou menos os lábios da minha mãe e entendi ”o Alexandre BATEU”. Imediatamente me meti na conversa: ”O Xande bateu com o carro?”.
Minha tia me pegou pela mão, me levou pro banheiro e disse:
– Dadai, minha filha, você vai ter que se manter calma por causa do bebê!
Na sequência, minha mãe chegou com um copo de água com açúcar. E como ela tremia! As duas mãos seguravam juntas, o copo;
Os lábios secos e os olhos estavam arregalados traduzindo um pavor que me fez entender que era algo muito, muito sério!
Minha reação foi dura e firme:
– Gente, seja lá onde ele estiver, quero ir pra lá AGORA! – E saí em disparada.
Fui ao encontro do meu pai que ainda estava no telefone com a minha comadre (a melhor amiga do Xande, a irmã que ele escolheu depois de ter perdido seu único irmão quando eram adolescentes).
Ao ver o semblante do meu pai, uma onda de terror me golpeou por dentro. Ali, eu já sabia!
Ao terminar a ligação ele me pegou pela mão e me levou pra fora de casa.
Depois de descermos o elevador, e entrarmos no carro sem dar uma palavra sequer, eu quebrei o silêncio e disse:
– Pai, o Xande morreu, né?
Ele balançou a cabeça confirmando. Em seguida me explicou tudo o que levou tantos minutos tentando assimilar durante sua fatídica conversa telefônica, sem me poupar os detalhes.
Após ficar a par de tudo, consegui manter o controle. Imediatamente me lembrei de uma palestra que assisti falando sobre perdas e de como as pessoas que morrem jovens e saudáveis têm dificuldade em aceitar o desencarne quando este se dá de forma tão abrupta e violenta.
Em nome do nosso amor, eu me mantive calma, lúcida e decidi que, pra amenizar um pouco a dificuldade que ele teria nessa separação repentina de nós, eu procuraria me manter o mais equilibrada possível. Naquele momento, ao invés de me deixar sucumbir pelo ódio e pela revolta, procurei me concentrar em bons pensamentos.
(CONTINUA…)