Parte 5

As únicas pessoas que restaram ao meu redor foram meus pais que fecharam o apartamento deles e vieram morar comigo e alguns poucos (pouquíssimos) amigos e familiares que seguraram as pontas dos meus momentos de calma, delírios e ira. Hora eu falava de Deus, que entendia que era uma cruz que eu tinha que carregar, em certos momentos eu blasfemava coisas tão feias que sinto vergonha até hoje, hora me pegava discando pro trabalho dele, só pra seguir com a minha rotina de ouvir a sua voz e, é claro, tinha meus momentos de choro e lamentações.

Além de tudo, ainda era preciso encaixar nessa dinâmica um menininho de 4 anos, que precisava de muito amor e atenção em dobro. E ajudá-lo a aprender a lidar e suportar, dentro do mundinho inocente dele, toda aquela confusão, bem como fazer das tripas coração para que ele conseguisse absorver que o ”papai foi morar com o Papai do Céu”. Ele também teve vários momentos de muita ira.

Não desejo isso pra ninguém.

E assim fomos levando e eu, nos meus momentos de calma, fazia minha oração diária pedindo a Deus, em 1º lugar, que cuidasse de forma muito especial do meu Xande. Feito isso dava início a minha oração cotidiana:

”- Deus, fazei com que os dias corram como é de praxe no último capítulo dasnovelas das oito”.

Tudo o que eu mais queria era dormir e acordar anos depois, com minha vida toda diferente. Queria poder me sentir feliz de novo. Sempre acreditei nessa possibilidade embora não conseguisse imaginar como esse dia poderia chegar.

Um mês e meio depois, tive que assumir o posto de sócia na videolocadora que o Xande era um dos proprietários. Eu sempre ia buscá-lo na empresa, pois não eram todos os dias que ele ia trabalhar com o nosso carro. Quando eu queria fazer surpresa, pegava o Matheus na escola e encarava a hora do rush. Chegava sempre no horário de grande movimento e ficava observando o Xande, suas funcionárias e sua sócia trabalhando e atendendo os clientes. Era um clima bem legal e descontraído. Esse ambiente acolhedor era o grande diferencial da Videolocadora, pois as pessoas iam lá não só pra alugar filmes, mas também pra bater papo. Eu sempre me senti super bem ali.

Mas se cair de pára-quedas em um local com a missão de assumir o posto de alguém super querido e que desempenhava sua função com maestria já é um tanto desafiador, imagine como foi pra mim, chegar onde eu sempre ia para encontrá-lo, onde tudo tinha o toque dele, a letra dele, onde volta e meia chegava alguém que não sabia do ocorrido e perguntava por ele?
Também tinham dois fatos que foram bem complicados de lidar: o de eu ser muito mais jovem que a sócia dele e o da minha idade ser a mesma das meninas que trabalhavam lá. No auge da minha imaturidade, era imensa a minha dificuldade em me impor como chefe e ser vista pelo clientes como uma autoridade ali dentro. Logicamente a insegurança estava em mim. Era eu que não me via como poderia ser vista.

Apesar das dificuldades em me adaptar, da cara de pena de todos que sabiam da minha história e de presenciar reações de espanto (de todos os níveis) dos clientes quando eram informados do motivo pelo qual o ”querido Alexandre” não poderia mais atendê-los, foi ali na videolocadora que eu encontrei forças e motivação para dar sequência aos meus dias e mascarar um pouco o sofrimento.

Trabalhei todos os dias até o final da gravidez administrando os horários de 6, 8 e 12 horas de acordo com o dia da semana e demanda de clientes.

A parte mais compensadora foi a quantidade de pessoas queridas que conheci desde que comecei a trabalhar lá. O amparo de uns, a admiração e respeito de outros, o modo como outros ignoravam totalmente o que se passava por estarem alheios aos acontecimentos; tudo isso foi, em grande parte, a grande ajuda que precisei pra subir os degraus e sair daquele mundo subterrâneo que eu me encontrava, do fundo do poço mesmo.

Chegou o dia da minha Beatriz nascer!!!

(Continua…)