Parte 6

Chegou o dia da minha Beatriz nascer!!!

O Xande queria esse nome a todo custo por causa da música do Chico Buarque que ele tanto amava na voz do Milton Nascimento. Todos aqui em casa sabem (inclusive a própria Bia) que eu não tinha a menor simpatia pelo nome, pois inexplicavelmente, imaginava uma menina impossivelmente levada, com cara de pimentinha, correndo pela casa, quebrando tudo e tirando meleca (e comendo…ECA!!!). 

Mas confesso que após o Xande partir, me pus a ouvir a música (ouça AQUI) e prestar mais atenção na letra. E só então comecei a ver o nome com outros olhos.
Principalmente por conta desse trecho:


"Sim, me leva para sempre Beatriz 
Me ensina a não andar com os pés no chão,
para sempre é sempre por um triz
Diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz"


Mas ainda assim, tinha minha lista de nomes preferidos: Sofia, Ethel, Sarah e Lara. Nessa ordem.

SOFIA – era o mais cotado, porque quando tive o Matheus, ainda no hospital,  a minha vizinha de quarto tinha rejeitado a bebê dela. Um dia, enquanto eu amamentava a menina que ainda não tinha nome, eu insisti para que ela escolhesse um nome pra pequena que mamava como um bezerrinho no meu peito, e aí ela balbuciou “Sofia” e deu uma olhada de rabo de olho para a menininha. Fiquei feliz por ela e pela neném, pois senti dentro de mim que, mesmo de um jeito meio torto, uma barreira havia se rompido ali.
E foi naquele momento que eu pensei que no dia que eu tivesse uma filha o nome já estaria escolhido!

ETHEL – inspirado em uma linda e doce menina que foi minha aluna quando dei aula de inglês no jardim de infância de uma escolinha.

SARAH e LARA – sem motivos especiais, mas sempre gostei dos nomes

 

 

Mesmo acompanhada dos meus pais, foi super estranho e dolorido ir para o hospital sem o meu marido.  Hoje, quando paro para me avaliar naquele dia, eu vejo nitidamente como eu negava dentro de mim o fato do Xande não estar presente por ter morrido. De alguma forma eu me blindei em relação a isso. Afinal de contas, era um dia especial para toda a família e eu percebo que eu evitei ao máximo focar na tristeza e na dor da ausência.
Mesmo com barrigão e com muito peso nas pernas eu mesma tratei de todas as formalidades da internação. Normalmente são os homens que lidam com essa parte, né? Mas me recusei a deixar tudo por conta do meu pai. Preenchi toda a papelada, sanei todas as dúvidas em termos de horários, normas do hospital, do papel do acompanhante e seus direitos. Por fim, recebi a chave do quarto. No hospital que a Bia nasceu era assim, tipo hotel, recebíamos a chave da nossa suíte.

E simbora porque a hora estava chegando!

Parentes e amigos chegando, minha comadre à postos para me acompanhar na hora do parto, o amigo do Xande que fazia residência em Medicina também à postos porque ele seria o “câmera man” (meu médico liberou a presença dos dois após meses de muitos beicinhos e pedidos meus).

Os primeiros minutos do parto foram bem tranquilos, tudo fluía bem. Porém, perto do momento da Bia da nascer aconteceram dois episódios:

1) Durante a cesárea ocorreu uma aderência gerando uma fissura na minha bexiga. Os médicos agiram rápido e resolveram a situação. 

2)  Minutos antes da Bia nascer, comecei a perguntar insistentemente pra Adri, minha comadre, onde o Xande estava e o porquê dele não ter aparecido, pois ele havia me jurado que superaria o medo de sangue e não ficaria de fora como fez no parto do Matheus.

Nem imagino o quanto foi difícil pra minha comadre lidar com essa minha abordagem.
Além de ter que segurar a emoção, ali ela percebeu que os dias a seguir não seriam fáceis.

 

(Continua…)