Parte 7

Sabe aquela oração que eu fazia diariamente? Então, acho que nesse momento, Deus finalmente ouviu as minhas preces, pois do episódio em que eu queria que o Xande visse o meu parto em diante, o relógio da minha vida deu um salto. A partir dali, poucos são os momentos que eu me recordo.

Passagens que minha mãe conta:

  1. ”Um dia, depois de amamentar minha filha, falei: – Como é estranho termos que conviver com pessoas desconhecidas, né?” – Segundo ela, eu me referia a minha Bia.

  2. ”Uma noite, ela foi obrigada a levantar da cama, pois a Bia chorava e não parava…ela foi ver e me viu sentada na cama imóvel, sem tomar nenhuma atitude, alheia ao choro…como se eu não estivesse ouvindo. Ela a pegou e trouxe pra que eu a amamentasse e eu disse: – Hoje não!”

  3. ” Por várias vezes eu não queria segurar minha filha, sendo necessário, inclusive para amamentar, que ela, acompanhada da nossa fiel escudeira, Mônica (nossa faz-tudo por muitos anos), se revezassem entre segurar a Bia e conduzir o bico do meu seio até a boquinha dela. Infelizmente a Bia não se dava como nenhum leite industrializado”.

Pelo que me contam as pessoas que conviveram dentro da minha casa nas primeiras semanas de vida da Bia, eu passava horas a fio fechada no meu quarto chorando compulsivamente enquanto lia todas as cartinhas, cartões, bilhetinhos e poesias que o Xande fez pra mim. Meu momento de luto intenso se deu ali, nos intervalos das mamadas da Bia.

Eu me lembro vagamente disso.

Na tentativa de me distrair e me tirar de dentro do quarto, uma amiga deixou seu  laptop comigo. Foi quando comecei a alternar  os momentos de dor, lamentação e amamentação, com os momentos de viagem pelo mundo virtual.

Comecei a ler muito, muito mesmo. Incentivada por ela e minha comadre, procurava ler também piadas, coisas engraçadas e aí descobri as as salas de bate-papo virtual.

Pronto, foi o empurrão que eu precisava. Decidi que precisava daquilo pra me libertar um pouquinho da dor. Comprei um computador!

E foi esse computador que me trouxe o bilhete do céu pelas mãos de um anjo que virtualmente atendia pelo nickname de Iceman.

Na noite que o anjo me trouxe o bilhete eu dormi em paz.
Fui lendo linha por linha, me emocionado e sentindo uma onda de tranquilidade me preenchendo por dentro. Era uma sensação ímpar que beirava a certeza de que eram palavras escritas dele (do Xande) pra mim. Com todo cuidado e senso poético, se fazendo presente ainda que ausente (leia AQUI).

(Continua…)